DESENTERRO

Tudo começa com os olhos fechados e logo estou numa praia. Nada parecido com o que qualquer um gostaria de ver, nenhum lugar onde alguém gostaria de estar. Tudo era escuro como numa manhã de tempestade. Na verdade, acho que era isto que estava se formando, prestes a acontecer. 


O vento frio balançava nossos cabelos e nossas roupas. Em frente, um mar negro tão distante, eu teria que andar por alguns minutos até sentir a água gelada. Mas eu não me atreveria a me aproximar, ao contrário, queria correr, porque, mesmo à distância, eu vi a onda se formando. Era uma tsunami que nos varreria dali em água preta. 


Mas, onde estava? Me dei conta com um susto. Não estava ao redor e não tinha muito para onde ir, tudo era só uma grande faixa de areia. A onda negra se formava à nossa frente, mas não poderíamos fugir sem ela, não, jamais. Nos pusemos a buscar com lanternas, pois cada vez mais se tornava difícil enxergar, dado ao chumbo em que se transformavam as nuvens e à névoa que cobria nossa visão. 


Andei mais distante e avistei as pedras e uma aglomeração. “Mãe?!”, ecoava na minha mente. Não, não podia ser! A aglomeração ao redor do corpo. Não podia ser isso o que estava acontecendo! Corri, em desespero, afundando os pés na areia, tropeçando, empurrando os abutres que olhavam o corpo no chão e nada faziam.


Olhei, incrédula, o rosto doce, o vestido azul vindo de um passado distante. Os cabelos loiros como um sol frio, a pele pálida e gélida de um defunto. Mas, o que parecia morto não estava. Arregalou os olhos castanhos na minha presença, mirou diretamente nos meus. Levantou o tronco subitamente, ia avançar em minha direção. Uma forte onda de choque reverberou pelo meu peito. Mas, aquela não era minha mãe… Aquela jovem era eu! Era eu em outra vida, enterrada viva na areia fria da praia de ondas negras! E fui eu quem fiz aquilo… “Como pude?!”, me perguntei ressentida e assustada. “Como pôde?!”, os olhos julgavam.


Tremendo de susto, quase caindo das pernas, corri o quanto antes e acordei. De olhos bem abertos, que encontro terrível comigo mesma. Respirava rápido e intensamente no escuro do meu quarto, agarrada à minha cama. “Meu Deus, Flávia, o que foi que você fez?”, repetia, “Por que me enterrei viva?”


E, então, os dias se passaram e eu tive que pensar sobre isso, pois não era um sonho qualquer, era uma revelação. Era ainda mais, uma ressurreição. Aquela face, aquela face, tão inocente versão de mim, enterrada injustamente, terrivelmente, numa praia fria. Nenhum motivo que justificasse esse crime antes poderia continuar justificando. 


As perguntas que rodeavam a minha cabeça queriam saber que partes de mim eu suprimi, que partes de mim eram tidas como indignas pelo mundo. Que partes, tão inocentes de mim, foram sentenciadas à morte e quais julgamentos foram realmente justos.


Quaisquer que tenham sido elas, não poderiam mais permanecer soterradas, sufocadas na areia. Tudo aquilo exigia um resgate. Avidamente, insurgiam. Ansiavam pela emersão de volta à vida às custas de que algo terrível pudesse acontecer caso o exigido lhes fosse negado e não fossem realizados os seus desenterros.


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