Não estou mais em depressão

Uma coisa que tenho repetido ultimamente para mim mesma: eu não nasci para sofrer. E sempre vou mais além: ninguém nasceu para sofrer. Mais fundo ainda até chegar na raiz do problema: sofremos porque vivemos num sistema baseado na exploração e na desigualdade.

Claro, não é "só" isso, mas quanto do seu sofrimento perpassa pelo capitalismo? Quanto te afeta ver pessoas comendo comida do lixo? Pensar em tartarugas engasgando com plástico ou animais queimados, largados à própria sorte sem água e curativos, no chão de cinzas depois de um incêndio florestal? Quanto te afeta passar a vida apenas estudando ou trabalhando, percebendo de tempos e tempos que seus pais estão ficando velhos, você está ficando velho, sua vida está passando e você não está vivendo?

Te afeta pensar que a culpa de ter uma vida ruim é sua por não ter se esforçado o suficiente?

Sabe como eu saí da depressão? Depois de muito tempo processando meus traumas, curando minhas feridas, tentando deixar o passado para trás... Depois de anos tentando me entender, mudando meus hábitos, cuidando mais de mim, ainda tinha algo que faltava. Algo que faltava jogar fora na minha limpeza interior.

Faltava jogar fora a compreensão errônea de que eu precisava fazer a coisa certa. "Fazer a coisa certa" para a classe média é se matar de estudar para conseguir um "bom" emprego e se matar de trabalhar para conseguir pagar um plano de saúde (ninguém quer depender dos SUS). Eu precisava jogar fora, calar a boca das vozes da sociedade que não me deixavam viver em paz.

Mas, é culpa da "sociedade"? Não é verdade que, se eu não tiver um salário minimamente decente, eu vou sofrer? Não é verdade que para ter esse salário eu vou precisar me matar de estudar e de trabalhar? Porque, olha, "a vida não é um morango"... É tudo verdade! Mas não é a sociedade a minha inimiga, não é ela quem eu tenho que calar, é o capitalismo.

E sabe como eu saí da depressão? Joguei fora esse último saquinho de lixo, com as sujeirinhas mais escondidinhas nos cantinhos dos móveis. Eu finalmente aceitei que o meu valor não se mede com imagem, com um "bom" emprego, com o que vão pensar de mim. Não está na minha produtividade, mas sim na minha Vida, em como eu experiencio a minha vida, em como eu toco as pessoas. Está nos carinhos que dou aos bichinhos, na ajuda e companhia que dou às pessoas. Está em ouvir o silêncio, olhar as estrelas e me sentir bastante cansada por ter vivido bem o dia. 

Então, quando decidi entrar na minha segunda graduação só pelo prazer de estudar e ter novas experiências; quando eu aceitei que não precisava me submeter às condições atuais de emprego porque tenho condições financeiras para apenas estudar por enquanto; quando aceitei que tudo bem se me interpretassem mal, se me achassem uma vagabunda, encostada ou imatura, foi só quando eu fiz tudo isso que os resquícios de sujeirinhas foram pra fora e eu finalmente me vi curada, pois fiquei em paz comigo mesma. Me despi da cobrança capitalista, do julgamento por não ser produtiva. E, por mais contraditório que possa parecer, o que eu mais quero na vida é trabalhar, produzir, me sentir útil, mas não nessas condições deprimentes. 

Hoje, tomo um remedinho que me ajuda a não sucumbir novamente. Ainda estudo e planejo como vou me sustentar, porque é tudo verdade, lembra? Mas eu me recuso a perpetuar o capitalismo, me recuso a viver a vida de olhos fechados. Eu vou viver nesse sistema, mas eu vou viver, vou estudar, vou trabalhar, descansar e me divertir pelo fim da opressão de nós, que somos seres vivos e temos a vida negada. Pelos irmãos da natureza, que são seres vivos e também têm suas vidas negadas. Ninguém nasceu para sofrer, sofremos porque vivemos num sistema exploratório e desigual. 


Imagem de um gato gritando acompanhada da frase "Alguém por favor cala a boca do capitalismo, eu tô surtando!!". As cores da imagem original foram editadas, estando predominantemente em tons fluorescentes de azul, mas com a silhueta do gato em rosa.
#PraCegoVer: esta imagem possui recurso de texto alternativo.



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